#24 // prazer, patchi.
hoje completo 40 anos e um novo ciclo se inicia com vocês também.
“Prazer, Patchi.”
Esse é o título que está há sei-lá-quanto tempo na minha lista de tarefas. Quando recebi o desafio de criar uma publicação me apresentando, aquilo me causou certa estranheza. Quem acompanha minha trajetória lembra de partes da minha história que nem eu lembro. Talvez por isso eu tenha a sensação de que a persona que habita o imaginário entre os dois lados de uma tela já está muito bem desenhada. Volta e meia alguém me dá oi como se me conhecesse e já chega chamando minha cachorra pelo nome. Ou às vezes percebo que a pessoa me reconhece e não fala comigo. Confesso que isso me provoca um mix estranho de sentimentos.
Danubia, minha arquiteta de ideias, insistiu na tarefa de casa e pediu que eu revelasse mais sobre a mulher com quem ela conversa semanalmente e que agora vos escreve. Muitos meses se passaram e aquela resposta que parecia tão óbvia só desencadeou mais e mais perguntas.
Afinal, quando tudo muda o tempo todo, o que permanece intacto?
Há muitos anos venho enfrentando um dilema gigantesco com as redes sociais. O desafio de manter constância vai além de um calendário que eu nunca consegui me comprometer ou de uma disciplina que eu não levo com a rigidez que deveria.
Sou muito grata por tudo que consegui realizar e pelas vidas que pude impactar graças à essa linda rede que criei aqui. No entanto, muita coisa mudou desde que comecei a produzir conteúdos e era inegável que tinha um lado da balança com um peso que eu já não conseguia sustentar.
No âmbito coletivo, muitos estudos sobre saúde mental já comprovam que alguns danos sociais são irreversíveis. A ansiedade gerada pela velocidade e efemeridade do que consumimos, a sobrecarga cognitiva, a projeção doentia que temos uns nos outros, a intimidade sintética que criamos sem nutrir vínculos, o tempo que parece escorregar pelos dedos enquanto seguramos uma tela, a desconexão com o que é real e a vitrine de sonhos alheios que provoca todo tipo de sentimentos.
Na esfera pessoal, tenho que lidar com uma extrema instabilidade financeira, a exaustão de ter que me reinventar constantemente, o excesso de exposição, a necessidade de validação constante, o desafio de me manter autêntica e fiel aos meus valores, a obsolescência de tudo que publico e a sensação desesperadora de estar presa dentro de um sistema que controla como agimos e pensamos de forma nada sutil.
Sumir sempre fez parte do meu repertório virtual. Eu ensaio um plano de fuga há anos, mas não é fácil abrir mão de algo que todo mundo parece desejar. Confesso que já escrevi inúmeros textos de despedida que nunca tive coragem de publicar, mas dessa vez não houve prenúncio. Tive uma fadiga digital extrema que simplesmente deu um pane no meu cérebro e não me deixou qualquer opção que não fosse desaparecer. Era como se minha conexão com o mundo virtual estivesse sendo sustentada por um fio, e chegou o dia que ele se rompeu.
Escutar o pulsar da vida.
No mundo real, a vida vinha pulsando mais forte do que nunca. Meu aniversário de 40 anos chegando com todos os questionamentos que tem direito, um relacionamento maduro que foi conquistando espaço nos meus planos de vida, uma viagem especial que reacendeu minha paixão pela estrada, antigos lares com novos (olh)ares e a fascinante imprevisibilidade dos rios da vida encontrando seu fluxo. Acho que o lado bom dessa crise toda foi aprender a enxergar cada vez mais beleza em tudo que atravessa meu viver. Fases de grandes mudanças são travessias complexas, mas se tem algo que tenho certeza sobre mim é que sempre abracei minha metamorfose com coragem.
Pela primeira vez em 15 anos, eu me dei férias sem avisar ninguém e sem resquícios de culpa. Só eu (e quiçá minha terapeuta) sabia como eu precisava desse tempo. Foram 2 meses ignorando a existência do meu celular, vivendo intensamente sem qualquer pressão de alimentar minha imagem e assim fui navegando em uma verdadeira epifania de ideias, que hoje sinto o desejo de gestar com mais comprometimento do que impulso, mas aquela pergunta seguia ecoando: quando tudo se transforma, quem é essa mulher que segue em mim?
» se prestar atenção na poesia dessa letra, vai ver que não é à toa que essa segue sendo minha música favorita desde os meus 20 anos.
Sabe quando você faz algo por tanto tempo que você já não sabe quem você é sem aquilo? Era isso que eu sentia depois de tantos anos usando meu instagram como ferramenta de trabalho.
Será que eu ainda amava viajar depois de ter encontrado um lugar favorito pra voltar? Será que ainda era capaz de me divertir com os perrengues da estrada? Será que minhas expedições ainda podiam se reinventar? Será que a fotografia ainda pulsava nos meus olhos? Será que a escrita ainda me transbordaria em momentos oceânicos? Será que o desejo de compartilhar vinha antes de apreciar a beleza das coisas? Será que eu ainda poderia me relacionar com alguém que me conhecesse além do que minha imagem representa?
Usar meu estilo de vida como fonte de inspiração para milhares de pessoas é não apenas perigoso como profundamente solitário. E pra piorar, a corrida do algoritmo não te dá tempo ou espaço pra sentir nada disso. Ela exige respostas imediatas para todas as mudanças.
O que ecoa do silêncio.
Chega um momento em que se torna impossível identificar o que permanece sem o olhar do outro. Muitas mulheres que passam por um processo de divórcio me contam sobre esse mesmo dilema, mas a resposta só começa a ser escrita depois da ruptura. No meu caso, eu sentia que precisava subir no palco e dançar com o improviso para sentir se meus olhos ainda brilhavam. Sem platéia, sem holofotes e sem aplausos. E quando me permiti fazer isso, me dei conta de onde estava meu maior incômodo: eu nunca quis construir uma platéia, mas sim um senso de pertencimento. Nunca quis ter um público para engajar, queria extrair o melhor de cada encontro. Nunca quis acender um holofote sobre mim, mas sim jogar luz naquilo que eu acredito. Eu nunca esperei por aplausos, eu sempre almejei pelas trocas.
Sendo bem sincerona e ignorando a impostora que invade minha cabeça, considero um verdadeiro milagre eu ter conseguido dar conta de realizar tanta coisa do jeito destrambelhada que eu sou. Eu sempre fui péssima nas habilidades técnicas que a fotografia exige, nunca lembro de qualquer regra gramatical, perco o foco com qualquer borboleta que passa pela minha frente e nunca fiz uma única planilha para organizar minhas viagens, mesmo trabalhando com expedições há uma década. Eu só consigo ser boa e autêntica no que eu faço porque eu sinto que nasci para criar conexões profundas e verdadeiras. Seja pela fotografia, pelas palavras ou pelo bom e velho abraço, esse é meu maior dom. E era exatamente o que eu estava deixando de lado.
Bom, além de tantos devaneios, hoje é um dia muito especial: celebro 40 anos muito bem vividos nessa doce aventura que é a vida.
Sempre acreditei na simbologia dos renascimentos e na energia que reverbera quando mudamos nossa forma de agir. Depois de tanto me doar ao vínculo que tenho criado com vocês, decidi aproveitar essa data para adentrar neste novo ciclo com um passo importante na nossa relação. Para isso, quero te pedir um presente que, embora tenha um preço simbólico, é de um valor inestimável pra mim.
A partir de hoje, vou trabalhar no formato de assinatura paga aqui nas minhas newsletters. Foi o caminho que encontrei para seguir essa jornada de forma mais coerente, fluida e comprometida. Meu trabalho sempre foi totalmente independente e seu apoio é fundamental para que seja possível seguir criando conteúdos autênticos por aqui sem que eu tenha que abandonar o barco de vez. Além disso, vai ser o melhor presente de aniversário! :)
A assinatura mensal tem um valor de R$44 ou apenas R$29/mês se você optar pelo plano anual - é como me convidar para um café. Com ela você vai receber conteúdos semanais incluindo: histórias por trás de uma imagem, bastidores do livro que estou escrevendo, reflexões existenciais, processos criativos, alguns “patcasts” filosóficos e o que fluir nesse espaço livre de criação.
Além disso, você também vai receber um convite gratuito para a roda de conversas online que irei conduzir mensalmente, onde teremos a oportunidade de nos aprofundar em temas diversos. Sempre com intuito de auxiliar no desenvolvimento pessoal com direcionamentos criativos, construindo um senso de pertencimento, nutrindo vínculos e expandindo a consciência de forma mais humana e coletiva.
Também criei a assinatura COLLAB, para quem sentir de colaborar de forma mais generosa com um valor anual espontânea. E como parte dessa troca, irei disponibilizar descontos exclusivos para todos os projetos autorais do meu laboratório de experiências.
Caso você opte por seguir com sua inscrição gratuita, vou continuar compartilhando minhas newsletters esporadicamente, sempre incluindo a divulgação de todas as experiências que conduzo: expedições, imersões, eventos, cursos e tudo mais que pintar por aqui. Seguiremos em contato, mas com menos conexão. 💔
Esse está sendo um momento muito desafiador pra mim (alô ansiedade) e vou adorar se você sentir de deixar uma mensagem de carinho aqui nos comentários. Nem que seja só pra dizer que não estou sozinha nessa e que algo ressoou em você. Afinal, essa fadiga digital não parece ser só minha, né? Vamos nos esforçar pra criar um ambiente mais gostoso por aqui? ♡
Em tempo, vou tentar rascunhar algo sobre mim:
Sou uma mulher fascinada pela vida e escolho vivê-la com intensidade em todos os seus altos e baixos. Minha maior escola sempre foi o contato com a natureza, com outras culturas e com a diversidade das pessoas. Sou questionadora e, muito antes de ter qualquer letramento sobre as causas que eu viria a abraçar um dia, eu sempre fui muito sensível ao que me atravessa. Uma sensibilidade que se manifesta no meu olhar atento às sutilezas que me cercam e na minha curiosidade pelo mundo ao meu redor. Sou apaixonada pelas coisas simples e acredito que a felicidade tem a ver com a paz que sinto nas escolhas que me moldam e com o equilíbrio que consigo ter na vida, mesmo diante de sua inevitável impermanência. Por isso, busco me nutrir de coisas que façam bem pra minha saúde física e mental. Deixo minha criança interior viver livre, independente da maturidade que meu corpo carrega, e acredito que seja aí que a criatividade me faz transcender. Reconheço minha imperfeição, mas busco ter coerência nos valores que eu acredito. Compreender minha existência como mulher no mundo é algo que me desafia diariamente desde que me entendo por gente, mas é também meu maior combustível e o que me motiva a evoluir e encontrar minha autenticidade. Prazer, Patchi.
Com carinho,
Até o próximo chá.mego!







Cheguei por acaso, acabei de completar 40 também e posso dizer: você não está sozinha. Me identifiquei muito com muito do seu texto. Que venha uma nova linda década pela frente ✨️
Sua sensibilidade é sentida em tudo que você faz, Pat. Na sua escrita, na fotografia, há anos no seu instagram. Por isso essa admiração por tantas pessoas. Um beijo. E feliz novo ciclo!